Escolas


Airuoca é uma pequena cidade de Minas Gerais que hoje conta com pouco mais de seis mil habitantes. Pois bem, foi dali que surgiu recentemente um medalhista das olimpíadas de matemática. Um aluno de escola pública, o qual por talento próprio e o empenho de um professor, passou de alguém com dificuldades de aprendizado para destaque nacional.  Alguns dirão, com razão, que se trata de uma exceção. Será só isso mesmo ? Deixem-me dar um depoimento pessoal. Tive o privilégio de estudar a vida toda em escola pública e depois ser professor numa delas. Nenhuma tinha as instalações ideais. Mas minha professora da última série do primário marcou minha vida. Ensinava muito bem e nos iniciou nas artes do teatro. Terminei como primeiro da turma. No ano seguinte minha família se mudou para São Paulo.  Eu, ainda pré-adolescente, fui matriculado numa escola estadual decadente em Pinheiros, abarrotada de alunos e, por isso, funcionava em quatro período, o meu era das 15 até as 19 h. De aluno de destaque no interior passei a ter dificuldades com matemática. Depois fui transferido para outro colégio estadual. As salas do fundamental eram bem razoáveis, mas o ensino médio, aconteceu num "puxadinho" com estrutura metálica, teto de zinco, sem isolamento térmico ou acústico decentes. Lembro-me do esforço da professora de matemática superando obstáculos materiais e preparando diversos alunos que depois seguiriam estudos em exatas. Apesar dos transtornos e ajuda do cursinho preparatório, tornei-me aluno de engenharia da USP em S. Carlos. Ali, na década de 70, desde o refeitório até os banheiros beiravam o abandono completo. O enorme diferencial eram os professores, dedicados e acessíveis. Muitos alunos ali formados comigo contribuíram, nessas quatro décadas, para avanços em áreas como construção civil, petróleo, aviação, indústria automobilística, eletroeletrônica e energias limpas. Anos depois tive a honra de ser professor no Cotuca, então instalado num prédio belíssimo construído no início do século XX, graças ao desejo de Bento Quirino, mas que naturalmente se deteriorava com o tempo. Além disso, devido ao aumento de alunos, salas improvisadas eram necessárias. Até mesmo o porão, quase sem janelas, foi aproveitado. Atualmente, após muita luta e superado o trauma de uma interdição, foram recuperadas as instalações históricas e construído um prédio anexo ainda por inaugurar. Apesar de tantos sacrifícios o Cotuca , graças ao seu corpo docente, forma excelentes alunos que brilham em suas carreiras. Tudo isso me permite afirmar que sem professores(as) mesmo uma instalação primorosa, como todas deveriam ser, é apenas um espaço vazio para encher o ego de políticos e, por vezes, os bolsos de empreiteiros. Infelizmente, nas últimas décadas a sociedade vem desprestigiando a docência. Chegou-se ao ponto de atacar professores, como se fossem os únicos responsáveis pela falência educacional, como se as famílias fossem seus clientes e não as primeiras responsáveis pela educação dos filhos. As críticas à formação e atuação dos professores são sempre válidas, mas enquanto perdurarem contra eles a chacota, o menosprezo e o rancor, os mais vocacionados seguirão essa carreira? Você aconselharia seu filho a ser professor?  Fala-se muito em construir escolas, é justo, mas se esquecem que o verdadeiro alicerce são seus professores.

Carlos Lopes 


artigo publicado no Correio Popular - 2 de abril de 2025